Traduzir as informações dos rótulos dos alimentos ainda é uma tarefa difícil. Mas e se cada nutriente viesse acompanhado de uma cor indicando “excesso” ou “quantidade ideal”, facilitaria?
Vá até o armário da cozinha e pegue o primeiro pacote que encontrar. Leia as informações nutricionais. Em uma porção desse alimento, qual a quantidade de gordura saturada e de fibras que você vai ingerir? Agora, outras perguntas mais difíceis: o que isso significa? É muito, é pouco, ou ideal? Que outros alimentos você precisa combinar com esse para balancear o seu dia, do ponto de vista nutricional?
Para os consumidores do Reino Unido e da Espanha, essas questões têm respostas mais simples. É que lá eles contam com uma ferramenta a mais, já que, além da tabela nutricional, a embalagem traz cores que indicam se um nutriente está em quantidade ideal, se está quase no limite recomendado para um dia ou se aparece em excesso.
O sistema funciona assim: a quantidade de gorduras saturadas que podemos comer por dia é 22 gramas, de acordo com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Se estivéssemos em terras espanholas, um pacote de bolacha que trouxesse mais de 20% dessa recomendação em 100 gramas do produto teria que assinalar o nutriente em vermelho. Se a quantidade ficasse entre 5% e 20% da ingestão diária indicada, o nutriente viria em amarelo. E se tivesse menos de 5%, viria em verde. Além disso, essas informações estariam na parte frontal do rótulo.
Vários fabricantes europeus estão adotando esse “semáforo nutricional”, que teve origem no Reino Unido há poucos anos, com o intuito de facilitar a vida dos consumidores.
As cores podem ser usadas para qualquer nutriente, mas são mais importantes para controlar o que pode nos fazer mal: sal, açúcares e gorduras totais, saturadas e trans. “Além de ser uma forma mais visível de informação, é uma boa estratégia para que os fabricantes produzam alimentos mais saudáveis. Nenhuma empresa gostaria que seu produto estivesse todo marcado de vermelho”, afirma Viviane Laudelino Vieira, nutricionista do Centro de Saúde Escola Geraldo Horácio de Paula Souza, da Universidade de São Paulo (USP).
Para dar uma idéia visual do que é a rotulagem por cores, selecionamos dois produtos, dispostos abaixo. Confira como seria a tabela nutricional de cada um deles no sistema de “semáforo nutricional” adotado por fabricantes espanhóis.

É importante apenas ressaltar que esses exemplos não indicam, necessariamente, o modelo que poderia ser adotado no Brasil. São apenas exemplos, tirados de produtos comercializados em outros países. A definição de um parâmetro nacional necessitaria de estudos aprofundados dos órgãos brasileiros responsáveis.

Você lê o rótulo?
A geladeira do supermercado está lá, com mais de vinte opções de margarinas. O que você faz, então, para escolher? Olha o preço? Pega logo a marca que costuma comprar? Verifica apenas a data de validade e a quantidade de calorias? Ou seleciona alguns pacotes para olhar as tabelas nutricionais e se decidir pelo que possui menos gorduras?
E se você não resiste a um bom pacote de bolachas, costuma olhar a quantidade de carboidratos e de sódio antes de colocar o produto no carrinho? É sempre bom lembrar que o sódio contribui para a retenção de líquidos no organismo e, portanto, é um dos propulsores da obesidade.
Infelizmente, por mais que você seja, em alguma medida, um consumidor preocupado com a saúde, é preciso muita paciência para olhar produto por produto, decifrar as informações nutricionais de cada um e escolher o melhor para o seu estilo de vida. Isso poderia levar um dia inteiro! E é nesse ponto que o semáforo nutricional pode facilitar sua vida: se as informações estiverem na parte da frente da embalagem e separadas por cores, basta bater o olho para fazer a seleção. E quanto mais verde, melhor.
O que pode melhorar
“Não imagino que haja grandes dificuldades para implantar esse modelo no Brasil. Mas acredito que pouco adiantaria adicionar mais essa estratégia sem antes divulgar amplamente aos consumidores o significado dessas informações”, diz Viviane.
Porém, na opinião da gerente-geral de alimentos da Anvisa, Denise Resende, talvez esse sistema não alcance tanta eficácia em aprimorar a compreensão do consumidor. “Esse tipo de rotulagem requer a definição de parâmetros para a classificação dos nutrientes, e é difícil fechar um consenso sobre esses valores. A compreensão das informações disponibilizadas na embalagem é uma preocupação da Anvisa, mas é preciso avaliar qual é a forma mais adequada e eficaz para melhorar esse entendimento”, afirma.
Já para o pediatra e nutrólogo José Augusto Taddei, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), “o traffic light labbeling [semáforo nutricional] poderia ajudar bastante”. E vai mais longe: “principalmente se acrescentássemos, nos pontos-de-venda, o preço por unidade nutricional do alimento”.
A rotulagem é o recurso que temos para escolher entre produtos similares, além de ser a única forma de verificar os ingredientes que eles contêm, o uso de aditivos (como conservantes, corantes e aromatizantes), o prazo de validade e os contatos do fabricante. Para que essas informações cheguem sem ruídos de comunicação, é inegável que os rótulos precisam ser modificados. “Uma das opções é marcar os alimentos não-saudáveis (aqueles que são ricos em gorduras saturadas e trans, e em açúcares, entre outros). Outra sugestão é mesmo deixar em evidência quais nutrientes são excessivos no produto”, afirma Daniel Bandoni, nutricionista da Faculdade de Saúde Pública da USP.
“Além disso, os rótulos deveriam ter letras de um tamanho mais adequado e, ainda mais importante, deveriam ser realizadas campanhas contínuas para mostrar ao consumidor como ler um rótulo. Também considero importante haver mais padronização no tamanho das porções que os rótulos indicam”, completa Viviane.
A Anvisa apenas indica tamanhos de porções aos fabricantes, que não são obrigados a usá-las. Uma porção de bolinho de chocolate deveria, por essa indicação, ter 60 gramas, mas muitos dos produtos no mercado são menores do que isso. Assim, cada empresa acaba indicando a porção pelo tamanho de seu próprio bolinho, e o consumidor precisa fazer contas, se quiser comparar diferentes produtos. As porções mais encontradas variam entre 40, 43 e 60 gramas. Situação parecida acontece em diversos outros casos.
Enquanto a mudança não vem…
No Brasil, qualquer produto industrializado é obrigado a trazer, na embalagem, uma tabela nutricional com o valor energético e as quantidades de carboidratos, proteínas, gorduras totais, saturadas e trans, fibra alimentar e sódio. Mas você sabe o que significa cada um desses nomes?
Valor energético: é a energia, produzida pelo nosso corpo, proveniente de carboidratos, proteínas e gorduras. É expresso em quilocalorias (kcal).
Carboidratos: são os componentes dos alimentos que têm como função principal fornecer energia para as células do corpo. São encontrados em maior quantidade em massas, pães, arroz, açúcar, mel, tubérculos, farinhas e doces em geral.
Proteínas: são necessárias para a construção e manutenção dos nossos órgãos, tecidos e células. Encontradas em carnes, ovos, leguminosas (feijões, soja, ervilha), leites e derivados.
Gorduras totais: fornecem energia para o corpo e ajudam na absorção das vitaminas A, D, E e K. São a soma de todas as gorduras encontradas em um alimento, sejam de origem animal ou vegetal.
Gorduras saturadas: presentes em alimentos de origem animal. Em grande quantidade, podem aumentar o risco de doenças do coração.
Gorduras trans: encontradas em produtos industrializados e alimentos fritos. Seu consumo deve ser muito reduzido, pois nosso corpo não necessita delas para nada, e além disso, elas podem aumentar muito o risco de doenças cardíacas.
Fibra alimentar: presente em frutas, hortaliças, feijões e produtos integrais. Auxilia no funcionamento dos intestinos e é o único nutriente para o qual há indicação de consumo mínimo na tabela. Para os outros nutrientes, a indicação trata do máximo de consumo diário recomendado.
Sódio: encontrado no sal de cozinha e em produtos industrializados. Seu consumo excessivo pode levar ao aumento da pressão arterial.
Açúcar e sal
Fala-se muito sobre o consumo desses dois elementos. Para ter uma vida saudável e manter o peso, evite consumir açúcar e sal em excesso. Mas onde eles estão, na tabela nutricional, para que o consumidor possa decidir o que comer? Eles estão lá, sim, mas “disfarçados”.
Os carboidratos podem ser divididos, sinteticamente, entre açúcares e amido. E quando essa divisão aparece no rótulo, dê preferência ao produto que tiver menos quantidade de açúcares. Como esse dado não é obrigatório, poucos fabricantes o fornecem ao consumidor. “Essa é uma das informações que seria interessante acrescentar nos rótulos: a quantidade de açúcares (conhecidos como simples ou livres). É fundamental”, afirma Daniel Bandoni. O máximo que um adulto deve ingerir de açúcares por dia são 50 gramas.
O sal está lá também, representado pela quantidade de sódio. Para você ter uma idéia, a fim de saber a quantidade de sal a partir da de sódio, basta multiplicar a quantidade deste último por 2,5. Mas não se confunda. Nas tabelas nutricionais, a quantidade expressa é sempre a de sódio.
Saiba mais:
Food Standards Agency (em inglês): www.eatwell.gov.uk/foodlabels/trafficlights
Alimentos australianos classificados de acordo com o semáforo nutricional (em inglês): www.choicefoodforkids.com.au
*Reportagem inicialmente publicada na Revista do Idec